É bom voltar ao passado desde que não se fique lá a morar. Há dias voltei ao passado, principio dos anos 80 para não exagerar. Vi- me sentado só dum banco de jardim com a mão direita coçando o meu queixo apoiando o cotovelo no meu joelho e com o ar pensativo que me era peculiar. Não me recordo agora da totalidade e conteúdo desses pensamentos mas havia neles uma preocupação. Uma preocupação do qual já não recordo a totalidade do seu conteúdo mas que tinha a ver as incertezas de uma adolescência que estava no fim e o inicio de uma vida adulta , tudo estava por fazer .
Mas ainda estava em plena época de paixões arrebatadoras com a duração de um verão, vivia-se a procura de um local a fervilhar de musica e cerveja , vivia-se o intenso de tudo experimentar, do sabor do beijo e de alguma desilusão que aqui e que aqui e ali nos obrigava a escrever poemas de rima forçada para impressionar a namorada . Era a época dos Cavalos de corrida dos UHF, dos Duran Duran, do cheiro patxuli, das festas de anos, do espumante barato, dos bailes de garagem , da ganga justa, das ciumeiras e bebedeiras da promessa de eterno amor e amor eterno mentiroso, era a época do 12º ano que levava dois anos a fazer e a outros uma eternidade, era a época do delírio do the Wall dos Pink, mas muito principalmente, a época do diluvio de sonhos pois tudo estava ainda por fazer. Regressando ao meu banco do adro da Igreja, ainda sinto a ansiedade da espera da namorada que ainda o não era. Era a doce sensação que nessa noite se ia viver de forma imprevista e ternurenta em que as mãos iam procurar o prazer antes do ofegante prazer tudo isto durante o mais longo e apaixonado dos beijos húmidos e salivados.
Quem tem o privilégio de reler as cartas que escreveu nessa altura, não as vai achar assim são ridículas, vai antes deliciar-se com um romantismo exacerbado mas sempre colorido , um romantismo feito cor de lua e sabor a promessa, de palavras simples á procura do complexo e de ideias sonhadas e repetidamente prometidas envolvidas na mais pura sinceridade que uma palavra pode levar ao coração. Nalgumas frases por vezes nascia a neblina do receio de que as suas já não tivessem resposta, ficando confessada alguma insegurança na reciprocidade. Surgiam depois as separações com a dor de um divórcio em miniatura, havendo casos em que lágrimas brotavam e jorrando rancor da ferida de onde outrora emanava amor.
É assim o campo de treino da vida, nessa altura vive-se praticamente para amar ou pelo menos á procura. A vida é aprendida passo a passo na procura de se conseguir saber quando devemos agarrar com força uma oportunidade e quando a devemos largar. A vida é de facto um paradoxo, manda que nos agarremos ás suas dádivas mesmo que mais tarde nos imponha o seu abandono. Li um antigo provérbio árabe que diz “ O homem nasce com o seu punho fechado, mas quando morre, a sua mão está aberta”. È claro que vamos aproveitar tudo o que a vida de bom pode dar, mas quando estamos a reconhecer isto, o que de bom a vida dá já pode ter passado ! No entanto, não devemos nunca mutilar os nossos sonhos só porque achamos que já não são realizáveis e exequíveis, já se terá visto sair lava quente de vulcões á séculos extintos.
Entre todos os ensinamentos da vida, há aqueles que vêm de uma inocência perdida e aqueles que tivemos que adquirir através daquilo que foi pensado e vivido. Entre estes dois ensinamentos, corre uma vivência de épocas amargas, de actos desesperados e angustiados, de tempos só nossos e demasiado íntimos para serem escritos, como que a dizer que a qualidade do homem se mede pela sua sensatez e pelo seu silêncio.
Do passado recordo as coisas belas e da forma como elas se foram apagando, das vitórias alcançadas com suor e outras ocasionadas pela ousadia.
A dor torna-se mais intensa quando nos lembramos que não gozamos essa beleza enquanto ela florescia, nem conseguimos corresponder a propostas de amor e sorte quando este nos foi oferecido. Tantas vezes isso aconteceu , recusar o que estava á mão para partir para projectos que nos deixaram novamente no inicio de tudo. Mas a vida é assim mesmo, procuramos estar agarrados a ela mas só com uma mão, a outra esteve sempre á procura do que não temos e que não sabemos se existe. Só assim se explica porque razão alimentamos sonhos sem esperança, quando diante de nós surgem propostas de projectos viáveis. Foi o coração que mandou, nós não concordávamos, mas, mesmo assim fomos atrás dele.
Para espreitar pela janela do passado, fazemos uso de recordações e não são poucas as vezes que regressamos à realidade com saudades. Gosto de rebobinar a fita do tempo, fazer malabarismos com as analepse mas tentando regressar sempre de sorriso nos lábios a este presente.
Com o passar dos anos até momentos amargos são recordados com algum carinho, quer pelas pessoas do qual temos saudades quer já pelo longínquo tempo em que aconteceram . A vida é assim mesmo , é por isso que sou feliz.