sexta-feira, 6 de maio de 2011

Expectavivas matinais

A elevada densidade populacional provoca traumatismos mentais , as pessoas começam a recusar a partilha do seu espaço nos autocarrros , a crise , esta crise está a afectar-nos a todos , isto é epidémico , começa logo pela manhã, carteiras e olhares embaraçosos, investindo numa verdadeira odisseia da verborreia. São preciosas pérolas de conversas estupidas que se ouvem aqui e ali, desde o Sr. Manel a jurar a pés juntos que a vaca é um Deus na China até à lista de medicamentos que uma idosa hipocondríaca recita sem parar . Depois temos aquelas que ao telemóvel que gritam para para casa a lista de compras que fizeram ou as que que viajam de autocarro, com o único propósito de disputar enfermidades  ou ainda a disputar qual delas tem os netas melhor na vida . As miúdas barulhentas de liceu de uma escola qualquer C+S da Avenida de Roma com a “posta do meio” à vista riem enquanto partilham oscultadores de um mp3.

Lá fora a cidade passa , a cidade existe ao ritmo de cada paragem e de cada entra e sai . Lisboa – cidade semi- fotogénica com esquinas singulares, ângulo recto, que abrem as portas às constantes mutações na relação tensa entre luz e sombra, criando cidades diferentes a horas distintas...não, também aqui o discurso se reduz a palavras feitas. Como descrever então o carácter único de Lisboa, a sua idiossincrasia urbana tão surpreendente e a massa humana voraz que ocupa as suas ruas centrais — de muitos centros?

Subitamente, entra no autocarro quem partilha silêncios e lia John le Carré, nesse dia trazia fato de executivo e não tendo lugar para se sentar seu olhar sentou-se no único lugar disponível , no meu , sorriu apenas para mim e mostrou incomodo por o autocarro vir tão cheio. Tal como frutos pendentes os passageiros movem-se a custo no interior do metal .Junto a mim um jovem perguntava à namorada:

-Mas não queres sair à noite porquê ?

Ao qual ela respondeu sem hesitar.

- Não sei ..mas não sou como o queijo Limiano não sou feita com leite das melhores cabras.

Fiquei perplexo, não sei se pelo queijo, se pelas cabras ou se por ambas. Lisboa às vezes é assim mesmo, Vibrante, Fervilhante , Excitante, Cosmopolita, mas se quiser baptiza-la com os adjectivos antónimos também estará certo , Lisboa é uma mulher ....tem dias.

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