segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Quase Natal


É quase chegada a época do amor, da paz, da concórdia!
Uma vez por ano sensibiliza mo-nos e pensamos nos mais desfavorecidos, mas claro, estando nós sempre quentinhos e tendo dinheiro no bolso para comprar as prendas (supérfluas ou não), aos mais queridos, como regra social!
Realmente o espírito é dar… dar para receber! No meio disto tudo esquece-mo-nos dos mais necessitados. Lá vem outra situação que nos faz lembrar esses infelizes e apiedamo-nos. Rapidamente esquecemos isso porque nos falta comprar mais uma prenda para a tia que deu um Rolex da feira do relógio o ano passado. Há que saber retribuir com igual elegância e bom gosto. Atarefamo-nos qual formiga mas a intenção é outra.
No entanto, lá está aquele que consideramos infeliz e que nos vê tão azafamados. Interroga-se, imagina estar na nossa pele. Imagina as roupas que compraria, o que daria ao filho, à filha, à mãe ou ao pai. Não se esquece de abastecer a sua mesa com tudo a que tem direito por tradição do Natal! A realidade sobrepõe-se ao sonho, à ilusão. Sabe que não poderá ter nada disso. Inveja-os e acha-os sortudos. O seu coração pesa. Faz contas, estuda as hipóteses, chega a uma conclusão: “ Sou um infeliz! Sou um pai de família e não consigo dar-lhes o que “manda” a tradição.” Como explicar ao filho que o colega da escola tem uma PlayStation porque o pai dele tem essa possibilidade? Ele não tem! Como reunir a família à volta de uma mesa cheia de nada ou de muito pouco? Sente vontade de pedir aos atarefados algo da sua farta provisão. O seu orgulho não deixa, sente vergonha. No entanto, volta a pensar na mesa vazia e enche-se de coragem, de olhos marejados em lágrimas, pede ao atarefado imbuído do espírito natalício, que cantarola as músicas da quadra presente, uma pequena ajuda para a sua Ceia de Natal. A resposta não se faz esperar: “Agora não tenho tempo, ainda tenho muitas prendas para comprar!” ….
É pedido a este pai de família que continue a acreditar no Natal, no amor, na paz, na concórdia. Afinal é esse o espírito de Natal!
O atarefado chega cansado a casa. Liga a televisão enquanto janta e comenta as compras que efectuou. Uma reportagem chama a sua atenção no telejornal:
“- No relatório "The State of Food Insecurity in the World 2001", a FAO referia que, em 1999, existiam 815 milhões de pessoas mal nutridas no mundo. Dessas, 777 milhões viviam em países em desenvolvimento, 27 milhões nos países em transição e onze milhões nos países industrializados. Os dados do Banco Mundial afirmam que 820 milhões de pessoas "não têm alimentos suficientes para levarem vidas saudáveis e produtivas" e que 160 milhões de crianças têm peso a menos para a sua idade.” (in Público). O seu coração enche-se de boa vontade, daquilo a que o Natal nos sugere e comenta: “ – Meu Deus! Que desumanidade. Tão ricos e não ajudam esses desgraçados que passam fome!”
Acredita realmente no que diz, mas esqueceu-se de fazer a sua parte. Esqueceu os infelizes que batem à sua porta e que fazem parte dessas estatísticas.

As luzes na cidade continuam acesas, a época natalícia continua no dia seguinte. Continuam-se a ouvir as melodias de sempre envolvendo, qual hipnose, os atarefados “felizes”. Diz-se.... conta que é época de Natal.

Como acabar uma amizade?



Como se acaba uma amizade? é fácil, há sempre a desculpa do "não és tu, sou eu", ou "encontrei uma pessoa que não é melhor que tu em nada, mas que me fez pensar nas coisas". Numa amizade todas essas frases perdem o sentido... A sociedade faz da amizade uma espécie de instituição, um muro inabalável, assumindo que as pessoas não mudam e, se mudam, mudam todas no mesmo sentido. A única forma "natural" de acabar com uma amizade é o afastamento causado pelo atarefado dia-a-dia, ou pelos desígnios geográficos da vida de cada um. Como se acaba uma amizade de um dia para o outro, alguém com quem convivemos regularmente, mas que por uma razão ou por outra deixou de nos ouvir, ou nós deixámos de a ouvir a ela?
É muito mais doloroso e difícil admitir o fim de uma amizade. Toda a gente nos diz que os amigos são para sempre e nós esforçamo-nos a acreditar nisso, acabamos por tomar as nossas amizades como garantidas e garantias de vida como seguros de amizade.
E se as exigências de uma amizade mudarem? E se os pólos da amizade forem forçados a inverter-se, se as funções de cada um dentro da relação forem obrigadas a mudar? E se as pessoas não tiverem a capacidade necessária para se adaptar? E se a obrigação da amizade as fizer continuar a insistir num caso perdido, algo que já não tem remédio? E se ambas as partes querem continuar amigas, mas não conseguem? E se a separação é tão dolorosa que ambas sofrem horrores e afastam o momento fatídico o mais possível? Consultam um conselheiro matrimonial? Não. A amizade é supostamente auto-suficiente. Supostamente cura-se a si mesma, confiando no tempo e no bom senso. (E se o bom senso não existir e o tempo for escasso?)
A amizade é, supostamente, a maior instituição dentro das relações. Um namorado/marido deve ser primeiro um amigo, o que deixa o amor para segundo plano. As nossas relações positivas com a nossa família baseiam-se numa espécie de amizade selada com pacto de sangue (essas sim, são ainda mais difíceis de acabar, mesmo que já estejam partidas há muito tempo). Tudo se baseia na ideia da eterna e inabalável amizade, na impossibilidade de haver uma discórdia grande o suficiente para causar o fim da mesma. Um amor acabar é considerado normal, já uma amizade.......