segunda-feira, 7 de julho de 2008

Crueldade ao volante



Ao folhear um conhecido matutino, dei por acaso com uma pequena nota de rodapé que noticiava mais uma morte na estrada. Sem saber como, lembrei-me de um “spot” publicitário que vira no estrangeiro, um estádio de médias dimensões com milhares de cruzes nas bancadas, cada uma delas simbolizando uma vítima mortal em acidente de viação. Que desperdício de vidas humanas e de destinos que se perderam algures no asfalto! Já nada nos assombra, nada nos inibe, nada nos surpreende, nada nos detém para pensar um pouco. As palavras e as estatísticas vergam-se e perdem o seu fulgor e a sua capacidade persuasiva quando se pretende hoje comover a opinião pública com este tema. Há muito que morrer na estrada deixou de merecer destaque na imprensa, é necessário por vezes fazer a triste soma da sinistralidade mensal para merecer algum ténue destaque, como que a morte de um só indivíduo não fosse por si só suficientemente dramática . A morte de um John na Austrália ou de Pierre em França chega mais depressa ao ecrã da nossa televisão se algo de insólito rodeou a forma como faleceu. Morrer na estrada, é como se se alistasse num exercito que perdeu a guerra porque dos fracos não reza a história .
Morrer na estrada é ter azar e nunca algo que permanentemente depende de quem vai ao volante. Não se bebe antes de se conduzir porque se pode ficar sem a carta, não respeitamos a limitação de velocidade porque o limite imposto naquele local é ridículo. Atravessamos uma localidade de província a 100 quilómetros á hora porque a estrada é “boa” e não se via ninguém . Depois temos desculpas para tudo, com argumentos surrealistas do tipo : - Sr Guarda , eu não vi o sinal ! Ou então, somos arrogantes e aqui ,há quem defenda a tese de que a arrogância é proporcional á cilindrada do veículo.
Somos ridículos quando aceleramos o nosso bólide porque o veículo que nos pretendia ultrapassar é de cilindrada menor, somos ridículos quando num excesso de fúria brindamos outro automobilista com o calão típico de quem não gostou da decisão do arbitro, somos ridículos quando na mesa do café nos gabamos dos nossos feitos automobilísticos e do tempo de duração das nossas viagens, - Fiz a viagem de Lisboa até aqui em 3 horas . Na resposta, se não tivermos um argumento superior vamo-nos desculpar que no ano anterior fizemos o mesmo trajecto em 2 horas. Como se a nossa masculinidade ou aceitação social saísse reforçada após tal proeza. Tenho a certeza que Freud ou Desmond Morris têm a explicação para esse nosso comportamento mas isso não iria aliviar a dor de quem acabou de perder um filho num acidente de viação.

Ao acabar de ler esta crónica , algures numa estrada qualquer, mais um compatriota nosso morreu vitima de acidente de viação. Para nós será mais um número, para os familiares começa hoje o principio do resto das suas vidas, a viuva , os órfãos , o súbito desaparecimento do sustento da família, os projectos desfeitos, os sonhos eternamente adiados e que não chegarão nunca a ser recordações . São os mártires de uma tragédia esquecida, são as baixas de uma “guerra” de números que não vislumbra a possibilidade de um tratado de paz . Só podemos culpar a nossa impaciência, a nossa pressa , a nossa agressividade e a nossa intolerância . Por vezes trata-se somente de querer chegar mais depressa ao nosso destino, mas , sem querer estamos a fazer com que este chegue mais depressa até nós e que este se cumpre de forma cruel e fatídica .
Ao volante , os nossos gestos tornaram-se automáticos e distraídos , as ultrapassagens são “agressivas” e á queima-roupa. A ultrapassagem acontece por vezes porque o veículo da frente vai sempre a travar ou demasiado lento para o nosso gosto. Há ultrapassagens feitas de modo tão inconsciente que jogar á roleta russa com duas munições no tambor do revolver seria certamente menos perigoso .
Resta-me falar acerca daquela estranha forma de solidariedade entre automobilistas que
consta naquele código de luzes para avisar quem segue em sentido contrário que algures á frente se encontram os agentes de autoridade , oxalá não faça um dia esse sinal de luzes a quem acabou de lhe assaltar a casa ! Ou então, talvez o automobilista tenha encontrado
uma nova dimensão para a expressão “ A PREVENÇÃO RODOVIÁRIA SOMOS NÒS “ .

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