
Lembram-se do que é que mais temíamos nos bailaricos enquanto moçoilos de 17 e 18 anos ? A inevitabilidade da 2ª tampa a seguir à 1ª. Não era? Era atroz mesmo.
Nos bailes das aldeias era sempre de evitar a 1ª tampa. Era, acima de tudo, de evitar que a 1ª tampa fosse visível (neste caso até a moça mais feia num raio de quilómetros fazia gosto -, não fossem pensar que ela era menos do que as outras- em dar-nos, uf! tampa).
Quando isto sucedia só havia duas coisas a fazer: Ir beber uma cervejita sossegados num canto qualquer ou ir para casa.
Quando a “pesca” não dá nada, o melhor mesmo é embalar a trouxa e zarpar… Ou então ganhar coragem e tentar novamente mas após beber meia grade de bejécas , nem que fosse para ganhar coragem para olhar para as trombas da feia para lhe dar a volta para ir para as traseiras do coreto e ensinar-lhe a descascar amendoins.
Há pouco tempo fui ao cinema. Sala quase vazia. A menina, sem nenhum sentimento de vergonha e pudor, naturalmente, estava confortavelmente sentada no colo do namorado, olhando-o nos olhos com paixão: cena normal em nossos dias.
Voltei atrás no tempo, estou no CineTeatro lotado, num domingo sem televisão, na sessão das 21h30, ouvindo a espalhafatosa "música de corneta". Apagavam-se as luzes. Os temerosos namorados preenchiam as poltronas vagas a eles reservadas. Para um abraço mais caloroso ou um furtivo beijo, ficava-se de olho no lanterninha, que incomodava os amantes com seu foco de luz inesperado e indesejado sobre eles, repreendendo-os por estarem muito juntos ou beijando-se, prometendo expulsá-los da sala numa segunda repreensão. Não era raro uma senhora mais pudica obrigar o desrespeitoso casal a retirar-se, sob o olhar da plateia. Mesmo assim, com uma vigilância incómoda, casais mais avançados ruborizavam seus vizinhos de poltrona... Certa vez, um susto: uma garota começou a gritar, num ataque histérico. As luzes acenderam-se. O pobre namorado não pôde desvencilhar-se a tempo das garras da menina excitada, agarrada tenazmente à sua carne...
Aos sábados e domingos, flertava-se no jardim. Os rapazes andavam, contornando-o, no sentido dos ponteiros do relógio. As garotas, em sentido contrário. E os pretendentes olhavam-se duas vezes em cada volta, voltando-se sempre, encontrando os olhos do par... O comum era ele se encorajar e conversar com a menina, que fazia drama, impedindo-o de acompanhá-la, temerosa da reacção dos pais... E o namoro nascia...
O casal se não ousava tocar em público. Depois do noivado, as mãos apertavam- se e o noivo oferecia o braço à futura esposa. Mas no escurinho do cinema e nos bailes, o tacto e o contacto ajudavam a conhecer corpos virgens...
Hoje, o mundo está muito transparente: ninguém mais se oculta e, às claras, as meninas sentam-se nos colos dos meninos... As sem-vergonhices de antigamente são tidas como rotineiras, já integradas na cultura moderna...
Hoje, o “agarramento” é tão comum no quotidiano do jovem que, nos bailes, os dançarinos dançam soltos e separados, sem intenções libidinosas, muito diferente do tempo de juventudes reprimidas, quando o baile era esperado para se concretizar sonhos proibidos...
E a grande novidade é que actualmente a liberdade de "agarrar" é tão grande que...o que esta malta começa a dispersar-se em novas técnicas e modos da sociabilidade humana , quer virtualizando quer swingando , quer entregando-se a outra qualquer folia ou imaginativa fantasia .
O panorama geral actual tende é o seguinte: mulheres que dançam umas com as outras enquanto que os homens, encostados às paredes, as olham, ao mesmo tempo que dedicam o seu empenho em emborcar mais uma "mine".
Algo de errado se passa. Senão vejamos. É um facto que em quase todas as espécies animais são os machos que se exibem enquanto a fêmea os admira e escolhe...
Assim, agindo daquela forma, o macho não merece a admiração por parte das fêmeas. Competir com uma garrafa não é nada estimulante, convenhamos. A perspectiva de uma noite bem passada é gorada pela garantia, se o macho se decidir a abordar um par, de uma coreografia ébria e de algumas pisadelas, para além de um hálito desencorajador (ainda que não partilhem fluidos, partilharão algum oxigénio).
Os mais velhos vão dizendo que no seu tempo é que era bom...
O bailarico era um acontecimento ansiado por todos. Algumas vezes por ano, sobretudo durante o Verão, havia a oportunidade de dançar com a menina dos seus olhos.
Dançar era, então, o único contacto físico socialmente permitido. Por isso o empenho e o esforço dispendido nesses momentos era largamente recompensado. Até aqui tudo está de acordo com a natureza.
Em casa é que eu não fico... não fico, não fico...
Não passaram milhões de anos e já tudo mudou. O que explicará este fenómeno evolutivo tão rápido?
Talvez o facto de o bailarico ter perdido protagonismo na vida social do nosso país. Ou porque as regras de convívio físico entre homens e mulheres se tenham alterado radicalmente.
Contudo, nada disto justifica o comportamento geral do macho. O bailarico continua a ser um local privilegiado de convívio. Para quê desperdiçar oportunidades tão solícitas...
Repare bem nas moçoilas que ali pululam. Repare como se esmeram na execução da coreografia da moda deste Verão... acha mesmo que elas querem dançar sozinhas ou umas com as outras?
Não lhe parece que tanta exibição e euforia escondem outros objectivos?
Uma vez que elas assumiram o desempenho que a natureza atribuiu ao macho, é normal que estes se encontrem perdidos, à procura do seu papel nesta peça.
Naqueles tempos de outrora procurava-se dançar um slowsito e no máximo que se trazia sendo a medalha de ouro era um apalpãozinho na maminha e eventualmente , um beijo furtado, isto porque como se dizia , um homem não era de pau, eventualmente andava de pau feito !
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