quinta-feira, 26 de junho de 2008

Trópico de Câncer


Não se está a pensar sempre nele, está-se a pensar muitas vezes na forma de como nos livrar dele. Custa mais ouvi o termo na boca de terceiros mesmo que este seja usado em sentido figurado.
Ninguém sabe ao certo o que passa pela cabeça de quem tem cancro, exactamente porque quem tem, aprendeu a mentir e quem teve não lhe interessa recordar porque diz que renasceu no dia da sua cura .
Numa doença em que o processo de cura passa muito pela estabilização e aceitação do seu problema , entrar numa espiral de desmotivação e revolta interior é francamente a pior opção para si mesmo , o mesmo acontece se optar pelo via contrária, de querer sugar repentinamente de um trago só todo o tutano da vida como se não houvesse amanhã , vivendo não um dia de cada vez mas um atropelo de situações e exageros
Por estranho que pareça, quem tem cancro não é um condenado, não cometeu um crime , ou teve azar simplesmente adoeceu e como tal vai ser tratado daí a razão de muitos serem curados , daí a razão de muitos viverem anos a fio com a doença e acabarem por falecerem com outra alheia ao foro oncológico .
Curiosamente sou daqueles que pensava que estas merdas do cancro era coisa que nunca me ia acontecer, sempre que me aparecia uma pagina acerca do assunto numa revista , passava á seguinte , era assunto que evitava por total falta de interesse e desprezo , era doença de idosos , logo estava a salvo. A imagem de um gajo careca com olheiras provocava em mim arrepios e desvio do olhar.
O contacto mais longínquo que tenho com o termo “ cancro “ data talvez dos anos 70 , o vencedor da volta à França Luís Ocanã ao deixar a modalidade soube depois de umas análises que tinha cancro , ao chegar a casa suicidou-se com um tiro de espingarda na cabeça . Este homem que sofria ao subir e vencer as mais dificeis etapas na Volta à França sucumbiu antes de lutar contra o inimigo invisível .
Estranha-se como este lutador tenha desistido da sua "montanha" antes mesmo de a começar a calcar , estranha-se que este lutador tenha de desistido antes de tentar e nao tenha esperado pelo pelotão dos outros corajosos que com ele partilham o mesmo mal . Há em todo o lado um camião vassoura que leva os que desistem para que estes não fiquem para sempre caidos junto á estrada - A familia e os amigos -
Outro gigante do ciclismo foi o francês Jacques Anquetil , um dia o seu grande amigo Poulidor sabendo que estava mal ligou-lhe perguntando-lhe como estava , este respondeu-lhe –
- Lembras-te há uns anos quando passamos os dois sozinhos no cimo da serra do Tourmalet ambos sem forças ?
- Sim lembro-me ..
- Pois…. sinto que todos os dias a toda a hora estou a subir aquela serra …..
Jacques Anquetil morreu de cancro com 53 anos em 1987.
Viver com cancro é como navegar num barco vazio que se tenta a todo o custo trazer para a margem. De repente tem-se necessidade de fazer algo ou a continuar a fazer o que se fazia como se nada se passa-se . De repente há coisas ao qual não dava importância alguma são agora objecto reparo e de intensa dedicação. Vive-se como pé no travão nos sentimentos ,eventualmente se só os olhos são o espelho da alma para o doente oncológico isso vai notar-se com outros sinais conforme o seu tipo e grau de enfermidade.
Á partida infelizmente não há uma receita para se vencer uma doença oncológica , há sim caminhos , vias que propiciam um processo de cura , fé , resistência , o medicamento certo , o tratamento adequado , a forma correcta de enfrentar a situação , mas sobretudo sorte , sorte porque pode-se ter todos os outros requisitos mencionados anteriormente mas a doença ser muito maligna.
Aconteceu-me que sempre que Deus me fechou uma porta , abria-me logo uma janela , sendo eu ágil era por onde saltava para o tratamento seguinte , muitos não têm esta sorte. E assim até hoje consegui todos os dias trazer o meu barco para a margem …
(Continua)

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