
Os meus amigos conhecem o meu sentido de humor, às vezes cáustico , outras mais irónico ,outras ainda simplesmente um humor “non sense” , talvez aquele nascido do momento entre o improviso e a vontade de dizer algo sem usar as palavras certas , ficando-me entre o " Private Joke" e o subliminar.
Quando perante um doente oncológico a questão do humor torna-se coisa séria ou eventualmente mais delicada, dependerá sempre da sensibilidade de cada um e da forma de como esta a encarar a sua própria situação e a não se deixar dominar pelas suas piores expectativas . Quanto mais se pensa no azar mais ele ...emerge ! e Nos Portugueses temos muito o culto do preto , da desgraça , do inevitável .
Recordo-me de um episódio à entrada da Radioterapia do Hospital Santa Maria onde um grupo de 5 ou 6 senhoras , familiares de um doente, ficaram à porta aos gritos , provocando alarme e um nervosismo entre todos os ali presentes , à boa maneira portuguesa vieram para ali carpir a sua dor . Pessoalmente, respeito a dor daquela gente que supostamente viera de muito longe para acompanhar o seu familiar ao tratamento , conheço a cor daquela dor , o seu sabor amargo, reconheço a necessidade do espírito de solidariedade familiar , da presença do grupo e da importância que o individuo faz dentro do seu grupo social e da importância do carinho que ele sinta à sua volta nesta altura em que ele esta mais debilitado ..mas há limites !!! Todo o Homem ou mulher que passou ou passa por uma doença avassaladora como esta , não fica indiferente , nem sai diferente se lhe sobreviver.
Se souber exorcizar e verbalizar os seus medos tanto melhor , descobrirá que existe uma cultura do “ ai Jesus !!! “ somos extremamente negativos negativistas e pesimistas , fatalistas , cantamos o nosso fado a chorar , está- nos no sangue , os brasileiros pulam e dançam com fome , os espanhóis deitam o fogo à paixão quando troveja o sonido do sapateado do flamengo Andaluz, o ex-libris deles é a silhueta de um enorme touro másculo colocado no cimo encostas das serras, altaneiro e orgulhoso , nos olhamos melancolicamente para o mar e choramos ,é o nosso destino , o nosso fado, o nosso ex- libris é o desgraçado do embuçado dentro da capa do Porto Sandman negra de triste Perante tal panorama a nossa canção nacional reflecte aquilo e como somos ,tristes e melancólicos , e quanto perante uma doença em que é necessária uma carga explosiva de positivismo, de garra em que é necessário dançar o flamengo com botas da tropa ... Mas não .ficamos ali a definhar a espera que a maré devolva os corpos do naufrágio ...somos …fatalistas e gostamos de o ser ..tinha que ser assssimmm , um pouco tipo conversa de futebol quando o nosso clube perde , a saga em volta da filosofia da desculpa ou a falta de sorte foi o meu azar...somos ineficazes.
E perante a morte? Continuamos iguais a nos mesmo , fatalistas e a definhar ante o o faço e não faço , com a cura em casa mas com receio de gastar dinheiro , hipocondríacos com gavetas de comprimidos fora do prazo em casa não vá o diabo tecê-las e a fabrica da Bayer . . As conversas dos nossos idosos andam á volta de, o tempo que faz , o tempo que fez agora fala-se mais do destino deste e daquele e do sentido da vida - Querem ver que os nossos idosos se estão a tornar cada vez mais filósofos ??!!
- …Olha lá morreu coitado tinha que ser , e depois geralmente responde a vizinha ……- Era o destino ! e diz ainda a vizinha da frente …..-Não somos nada neste mundo ,e depois chega o Ti Maria das Léguas e acrescenta ….. - Não tarda tamos lá todos eu já ando aqui com uma dor nas cruzes Chega o Ti zé Mota e diz - Olhem no outro dia bebi uns copitos e li um livro do meu filho mais novo que dizia " O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte.
Friedrich Nietzsche - Não sei o que isso quer dizer mais fica muita bem dezido aqui agora nã é?
No Nosso pequeno Portugal ainda será assim mas o que acontece em todo o restante território, são situações que surgem não por uma cultura de maldade , mas surgem por distracção dentro de um contexto que acaba por vezes por magoar o doente .Doente e visitante vivem realidades agora distantes e as palavras as vezes e agora mais que nunca têm peso diferente porque as sensibilidades são outras -
Por ex : Evite dizer , como já presenciei, visitar um amigo doente e dizer - É PÁ TAS COM UM MAU ASPECTO ! Fica muito mal . Deve ser pior que um murro do Maomed Ali sem luva . ( Bom eu a esta se estivesse bem disposto respondia - Ainda não viste nada , se eu levanto os sovacos cais para o lado .
Se for uma senhora – evite dizer - Tinhas um cabelo tão lindooo!
Outra coisa ...por favor ..não vá nunca mas nunca visitar um doente e se ponha lá a chorar , é no mínimo altamente desanimador para todos na sala . Um doente internado está lá para se curar não fosse isso estaria em cuidados paliativos .
Depois há assim pequenas coisas que quem lida com a doença tem de aprender a lidar com essas idiossincrasias , eu por exemplo não gosto de … , não suporto certos ruídos !!!!! Tenho pânico de ressonâncias magnéticas e sou alérgico a alguns tratamentos .
Não gosto de falar de cancro com final pouco feliz .
E não me enviem para a minha caixa do correio a cura para esta doença a não ser que já tenha sido testada por administradores pagos de forma escandalosa
Para terminar , não se preocupem em verbalizar medos , realizem sonhos .....
2 comentários:
É por essas e por outras que não digo à minha sogra que estou doente!!
lol
Não gostas de ruídos, não é? mas depois metes o Shawn McGowan naquele estado a desejar bom Natal...
Um abraço para ti, gostei do texto.
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