quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Cancro


Não se está a pensar sempre nele, está-se a pensar muitas vezes na forma de como nos livrar dele. Custa mais ouvi o termo na boca de terceiros mesmo que este seja usado em sentido figurado.
Ninguém sabe ao certo o que passa pela cabeça de quem tem cancro, exactamente porque quem tem, aprendeu a mentir e quem teve não lhe interessa recordar porque diz que renasceu no dia da sua cura .

Curiosamente sou daqueles que pensava que ter cancro era coisa que nunca me ia acontecer, sempre que me aparecia numa revista, uma pagina acerca do assunto , passava à seguinte , era assunto que evitava por total falta de interesse e desprezo , era doença de idosos , logo estava a salvo. A imagem de um gajo careca com olheiras provocava em mim arrepios .

Viver com cancro é como navegar num barco vazio que se tenta a todo o custo trazer para a margem. De repente coisas ao qual não dava importância alguma são agora objecto reparo e de intensa dedicação. Vive-se com o pé no travão nos sentimentos .
Á partida há uma receita para se vencer uma doença oncológica , há caminhos, vias que propiciam um processo de cura , fé , resistência , o medicamento certo , o tratamento adequado, a forma correcta de enfrentar a situação , mas sobretudo sorte, sorte porque pode-se ter todos os outros requisitos mencionados anteriormente mas a doença ser muito maligna.
Acontece- nos que sempre que Deus nos fecha uma porta , abre-nos logo uma janela ,ó por ai que devemos sair ..e se não somos capazes ..pedimos ajuda ..e vamos em frente para o tratamento seguinte …sabem onde eu fui buscar forças para fazer radioterapia e ir trabalhar? Era ver os muidos sair dos tratamentos a rir , se eles conseguem , eu também posso , há certamente coisas bem piores que a radioterapia…
sendo eu ágil era por onde saltava para o tratamento seguinte , muitos não têm esta sorte. E assim até hoje consegui todos os dias trazer o meu barco para a margem .

1 comentário:

karraio disse...

Bom texto, João. A imagem que mais gostei foi a de viver a vida com o pé no travão dos sentimentos, apesar de ficar na dúvida sobre o sentido que lhe pretendes dar: o doente oncológico tende a inibir, a retrair, a esconder, mais os seus sentimentos, ou a deixá-los fluir, a exteriorizá-los? Ou faz isso selectivamente: prende os maus, solta os bons. Se assim é, eis um polícia comédado. É o teu caso não é?