
Aproximas-te do balcão e pedes um isqueiro ao empregado. Ele, que parecia tão ocupado, pousa os copos e vai lá dentro buscar um, e isso é só porque és boa. Que esperes só um bocadinho, diz. Estás ao meu lado e espreitas-me pelo canto do olho antes de desviares a face para a insistente televisão no canto do café. Sim, já bebi seis cervejas. Sim, estou sozinho. Sim, o meu casaco já está a arrastar-se no chão. Sim, a única merda para onde estou a olhar há uma hora é um papel que diz que as bebidas são para consumo da casa. Sim, gostava de te consumir em casa, na tua, na minha, ou na de outra pessoa qualquer. O empregado demora e tu suspiras. Já lá vem ao fundo mas um colega interrompe-o. Diz-lhe que estão muitos clientes por atender, ele que se despache. Terá mesmo que se despachar, porque por seres boa interrompeu a sua lógica mecanicista da vida: a de servir bebidas a pessoas sós. Debruças-te levemente sobre o balcão, e eu apanho o meu casaco donde tiro uma carteira de fósforos. Ah, afinal eu tinha lume.
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