quinta-feira, 28 de outubro de 2010

No autocarro



1989 - São 20 horas e ela encostou-se à paragem de autocarro lendo um livro qualquer de poesia, deixando-me estátua poluída pelo tráfego. Olhei-a nos olhos , ela nem se mexeu. Que altura para descobrir que se gosta de poesia, pensei. Que altura para me triturar com os olhos, deve ter ela pensado. As nuvens cuspiam-me em cima, nem um miserável guarda-chuva eu trouxera.
O autocarro chegou cheio e parou. A desilusão vinha lá dentro com as faces coladas ao vidro, ninguém saiu . Quando entrámos no autocarro, levantou-se um gordo que queria sentar-se entre nos. Resolvi sair da escuridão e perguntei-lhe que livro lia. Nada que a ti te interesse, respondeu-me. Pois não, pensei, nada que a mim me interesse. As mulheres simulam ignorar o facto de nós as acharmos bonitas, assim como a nossa capacidade de as apreciar. Apeteceu-me contar-lhe o fim do livro, mas isso seria cruel. Poderia ter dito que desde que tinha entrado no autocarro ainda não tinha mudado de página. Já isento e alheio ao valor da leitura sem querer o meu olhar aterrou no seu decote. Não foi culpa minha. Entretanto pergunto ; -Em que pagina estas? , o ruído da cidade a não deixou ouvir, naquele momento ambos viajávamos à velocidade do silêncio e como dizia um poeta , ficamo-nos ali com a alma a esvair-se em contemplações.
Cheguei à minha paragem e sai. Certamente se fosse hoje tínhamos partilhado os ocultadores e trocado as moradas para conversas nas redes sociais. Os tempos mudaram…


( Texto elaborado em 2006 )

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