Há já alguns anos que juntei os ruídos típicos da cidade à minha noção de silêncio, à noite esses sons já fazem parte do meu bem estar e quotidiano, tendo-se essa miscelânea de ruídos tornado no verdadeiro som do meu silêncio. E foi também em silêncio que há pouco acabei de ler um livro,.....é estranho, mas há obras que quando acabo de ler, fico com a estranha sensação de ter perdido os amigos que nele viviam e sentir saudades de alguns cenários, um pouco como se tivesse regressado de uma viagem e voltar à realidade com pena de que o livro não tivesse mais paginas para me deliciar com o aroma da sua envolvência para poder regressar aos climas misteriosos dos seus enredos e à riqueza de sensações e sentimentos. Há livros que nos deixam literalmente apaixonados pela lua, pelo sol , pela terra , pelo mar , andamos dias a pensar neles, procurando rapidamente um substituto. Eram só palavras, mas servidas com toda a elegância e o bom gosto. Palavras de cristal servidas com talheres de prata à mesa do sonho. Palavras com pitadas de ousadia e polvilhadas de ternura, apimentadas com um aceitável erotismo e servidas junto a uma estrada onde a nossa imaginação possa viajar. Gosto de sentir na mão o receio ou a pressa da pagina seguinte, sensação essa parecida com aquela que nos atiça a curiosidade.
Magnificamente fecunda, a palavra mexe inexoravelmente connosco, não só pelo seu significado, mas muito pela forma como ela foi dita, vocalizada, pronunciada, gritada, mimada , gesticulada mas muito especialmente , murmurada.
O mímico Marcel Marceau dizia que “com gestos a gente poder expressar tudo de modo a não ser mal entendido. As palavras às vezes são dúbias, mas a pantomina é clara simples, clara e directa”.Nas novas tecnologia do Chats , as palavras e sentimentos podem ser falseados , podemos andar a ver aquilo que o nosso que o nosso coração quer ver . è uma realidade virtualizada oca e idealista .
Sonhar é bom , mas no sonho tudo falta , não sentimos o vento, o sol ,o frio, o calor , tudo nos chega só através da palavra. Por mais profunda que esta seja, poeta algum pode por na sua rima o verdadeiro prazer de sorrir ou ouvir a maravilhosa musica que é o nosso nome dito pela boca de alguém que nos olha nos olhos. A palavra não é pretensiosa ao ponto de se querer subsistuir aos nossos sentidos
A música é o melhor suporte para a palavra, gosto de ouvir um Leonard Cohen tirar as suas do fundo da alma, arrastar as palavras com um tom deprimente que nos obriga a mergulhar nas mesmas águas. A musica encurta a distância emocional entre as pessoas, temos tendência em nos dar e encaixar melhor com quem ouve as mesmas que nós imprimindo ás palavras. Todos temos uma musica nossa que escolhemos pela magia da recordação que tem. Essa musica trás consigo saudades, um pedaço do nosso passado, um pedaço de tempo escolhido ligado a um perfume, um momento, uma promessa ou uma paixão. Por vezes evitamos ouvir ou recordar esse pedaço de tempo, pois sabemos que ele trás consigo o sabor amargo de algo que ainda não conseguimos esquecer. Quer pelo poder da palavra ou pela involvência criada, a palavra germinou e terá dado fruto.
E se mal nisso houver, haja quem lhe atire a primeira letra.

3 comentários:
Tem razão, tudo nos chega através das palavras,assim nós estejamos recetivos a elas,tal como na apreciação que fez, sem juizos de valor sobre a duplamente infeliz portadora de cancro.
Tudo isto, acontece todos os dias sobre tantos anónimos,que é dificil nos passar pela imaginação,só nos apercebemos quando passa dentro de nós ou ao nosso lado.
Sobre os livros,embrenhamo-nos de tal maneira na escrita que a nossa fértil imaginação nos transporta para a narrativa,onde nos passeamos por entre os personagens,com os quais convivemos e reconhecemos e de quem sentimos saudades quando acaba a leitura,ao ponto de não gostarmos do filme que mal retrate o nosso livyro favorito.Basta tão só colocar janelas novas naquela casa velha onde as janelas foram levadas pelo vento,que só podiam ser velhas e frágeis.Famaral.
E karraio de livro é esse?
o livro que nos falta escrever
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